A velha toupeira de Perdizes

APROPUC-SP 10.12.10

Por Aldo Sauda, aluno de Direito

O constante processo de ações e reações que marcam qualquer espaço público (seja ele estatal ou não) é inquestionavelmente caracterizado pela imprevisibilidade da política. E se o brotar de novas ações surpreendeu os que se auto-intitulam narradores oficiais da história, a espontaneidade daqueles que constroem sua própria realidade tende a colocar em contradição os observadores que ignoram o subsolo vivendo somente das análises da superfície. A cotidiana construção de túneis, que muitas vezes tomam caminhos tortos e pouco ortodoxos, podem até surpreender o narrador desatento, porém, eles são a marca da imprevisibilidade do processo histórico no qual estamos todos inseridos.


Após três anos de uma apatia crônica, típica dos doentes que após grandes eventos geradores de traumas se recluem em sua própria solidão, a PUC-SP voltou a viver. Este processo, é válido lembrar, não deixa de ser marcado por um passado violento não tão distante, cujas cicatrizes impõem novas regras a um jogo travado há décadas entre as forças, seculares ou não, que compõem a nossa universidade.
Após uma campanha marcada por atos, abaixo-assinados, atividades culturais e debates públicos, os estudantes que cotidianamente constroem as lutas sociais na PUC-SP, assim como a toupeira que silenciosamente cavoca seu túnel, colocaram pela primeira vez no ano sua cabeça para fora, pegando a todos de surpresa. A surpresa não se dá exatamente pela opção radical da ação direta de ocupar ou não ocupar um espaço, mas sim pela inesperada universalização de debates e reflexões até pouco excluídas do dia-a-dia da universidade. A tomada de assalto da direção da instituição, que até então agia como a repartição pública de um órgão burocrático, tomada pelo insuportável ritmo dos selos e carimbos oficiais, impôs um despertar a todos aqueles que vivem e pensam a nossa universidade, acordando-a após uma longa noite de sono. Já os adeptos do partido da ordem, que confortavelmente gozavam dos frutos de embates passados, para seu inconfortável espanto, passaram a ter de lidar com uma realidade imaginada por muitos como morta.
Maior que a surpresa da ocupação, ocorrida no pacato mês de novembro, foi a ainda mais surpreendente desocupação espontânea de um espaço fetichizado e idolatrado por muitos (sejam eles partidários da ordem, ou seus supostos inimigos mortais). A desocupação, assim como a ocupação, surpreendendo aqueles que observavam a realidade apenas pela superfície visando resultados imediatistas, inseriu um novo ritmo na universidade, cujos efeitos perpassaram de longe o mês de novembro. Sua radicalidade, alinhada com uma saudável dose de heterodoxia, cumpriu um papel que nem o mais bem elaborado documento político pode cumprir: a elevação da consciência dos estudantes e da comunidade para um novo patamar político.
A reação de choque dos dirigentes da Cúria Metropolitana de São Paulo, fosse pelo estado de perfeição no qual a Reitoria foi entregue pelos estudantes, fosse pela impossibilidade material de criminalizar o movimento, ou fosse, principalmente, pela necessidade de pela primeira vez em quase 5 anos serem obrigados a sentar, e ainda mais, negociar com os estudantes, revelaram a vitória do movimento sob todos aqueles que em 2007 choraram (ou comemoraram) a sua morte.
As ondas de choque emitidas pela rápida subida à superfície de um animal supostamente frágil e míope reverberam pela universidade. Um novo ânimo parece ter tomado o espaço da apatia e do derrotismo, alterando radicalmente a conjuntura política da universidade. Seus ecos se estendem até mesmo nos conselho institucionais, que lentamente começam a questionar os dogmas sacros da maximização, da retenção da carreira docente e dos ataques aos direitos trabalhistas mais elementares dos professores. O lento e aparentemente confuso cavocar do pequeno mamífero, que quase sempre pega a todos de surpresa, indica que para 2011, após anos e mais anos de aparentemente irreversíveis derrotas, poderemos levantar de um salto e exclamar exultante: “belo trabalho, minha velha toupeira”.

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