WikiLeaks, Vazamentos e uma nova diplomacia mundial

Vazamentos sempre ocorreram na diplomacia. Agências entravam em conflito, documentos eram desviados, roubados ou mesmo eram divulgados pelas próprias chancelarias com objetivos específicos – fazer guerras, contornar guerras ou apenas prestar “esclarecimentos” ou fingir transparência.
Além dos vazamentos, o desrespeito ao princípio do pacta sunt servanda (os pactos devem ser respeitados) já era algo comum e notório desde pelo menos Bismarck, ha mais de 1 século. Que também não era famoso por respeitar adversários ou aliados em documentos confidenciais. E, claro, ele também manipulava tais documentos a seu bel prazer.

Enfim, nem o que faz os EUA e seus embaixadores e pessoal no estrangeiro é novidade, e nem o vazamento patrocinado pelo WikiLeaks.

Mas o WikiLeaks conjugou os vazamentos à uma escala global. Aí está a novidade. Alcance, proporção e resultados [efeitos] potencialmente globais.

Não se trata do vazamento de meia dúzia de documentos – por mais que mesmo um possa em si causar uma guerra – mas o vazamento de milhares de documentos que alcançam um público jamais visto. E os efeitos são, para os países envolvidos e pegos cometendo as maiores atrocidades, potencialmente catastróficos.

Além do efeito dos documentos vazados em si, fica também o medo do que pode vir a ser vazado, do que pode ainda vir a ser divulgado.

Isto tudo se alia à discussão da liberdade na rede, do alcance e potencial da rede. Enquanto para a população o WikiLeaks se mostra como uma fonte potencialmente inesgotável de informações sobre o que fazem de verdade seus governos, para estes últimos o WikiLeaks não é apenas um perigo, mas um inimigo a ser destruído e, para melhor conseguir o objetivo, nada melhor do que também buscar censurar a internet, para evitar que qualquer possível sucessor do WikiLeaks possa surgir.

Censura imediata e censura da rede. São as etapas a serem seguidas pelos governos. AI5Digital em escala global e um ACTA vitaminado. Os Estados tem pavor absoluto da rede e tentam de todas as formas censurá-la.

O “dilema da segurança”, acredito, fica em segundo lugar na discussão. Não interessa à população mundial manter escondidas as mentiras e negociatas de Estados sujos, senão a liberdade na rede, a liberdade da circulação de informações e o conhecimento.

Apenas Estados criminosos e que tenham segredos perigosos a esconder temem o WikiLeaks e o poder da internet, logo, são Estados que não merecem qualquer respeito por parte da população mundial. Estes se escondem sob relatórios e arquivos acessíveis a apenas um pequeno número de pessoas e, assim, buscam definir os rumos do mundo, sem se importar com o que querem seus cidadãos ou com o efeito de suas ações.

A atitude criminosa fica ainda mais evidente quando, após os vazamentos, estes Estados ao invés de esclarecer as estarrecedoras verdades que surgiram, buscam, por outro lado, censurar, perseguir e sequer negam aquilo que foi revelado.

Sequer o constrangimento dos segredos revelados faz, nem por um segundo, os Estados criminosos repensarem suas ações e seus métodos.

Alguns podem argumentar que nem todos os segredos podem ou devem ser revelados, outros ainda afirmam que a diplomacia em si necessita de segredos, mas, podemos também argumentar, nem todo segredo deve ser enterrado para sempre e, na maioria dos casos, se é segredo, então dificilmente é algo honesto ou que vá efetivamente beneficiar a população mundial.

Outro dado relevante é a quase impossibilidade do vazamento de todo e qualquer dado ou documento diplomático. Seja pela impossibilidade de processamento, ou pela improbabilidade de alguém com tal acesso ter a possibilidade de vazar tanto material. Mesmo o WikiLeaks analisa aquilo que vai vazar afim de evitar problemas que atinjam populações e indivíduos – mas não governos.

Como seria se, no Brasil, os documentos da Ditadura ainda secretos fossem vazados e o povo pudesse saber a verdade sobre um dos períodos mais negros de nossa história? Estes documentos permanecem secretos não para beneficiar a população, mas para livrar a cara de criminosos e para esconder a verdadeira face do Estado.

A informação e a divulgação de crimes por parte de Estados, acima de tudo, é uma questão ética. Estamos falando, aliás, de uma rede mundial conectada, logo, impossível de ser totalmente parada ou controlada.

Cabe aos Estados, então, se conformar com a realidade de que seus segredinhos sujos poderão ser descobertos e divulgados para o mundo. Se por um lado isto pode aumentar a proteção aos documentos, por outro é um aviso do mundo a seus governos: “Nós estamos vendo tudo, pode esconder, mas cedo ou tarde serão desmascarados”.

Apenas a pressão constante e mais ações para desmascarar estes Estados podem, talvez, tornar mais transparentes tratados, contratos e acordos. E apenas com a internet livre poremos garantir que isto aconteça.

Porque, depender de organismos que DIZEM defender a liberdade, só mesmo rindo ou se desesperando.

Não encontraremos qualquer apoio.

Paulo Moreira Leite disse:

Posso até admitir que os papéis não produziram nenhum escândalo colossal nem trouxeram uma única revelação realmente bombástica, ao menos até aqui. No mundo inteiro ninguém ficou sinceramente supreso ao flagrar determinados ministros procurando agradar embaixadores de Washington nem outras autoridades em postura exageradamente subalterna durante uma negociação.

Das duas uma, ou os EUA não toleram que NADA sobre suas ações seja sabido, mero despeito, ou sabem que esta é só a ponta do iceberg e que vem pedrada pela frente, como se o WikiLeaks tivesse dado aquele gostinho, tivesse mostrado um pedaço da mercadoria para mostrar que falavam sério e agora vão jogar a bomba.

Aguardemos.

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