A pergunta que não quer calar: Por que os funcionários administrativos estão saindo da PUC-SP?

Andrea Melo | APROPUC-SP 06.12.10

A explicação de alguns gestores é risível: um não viu nada, não ouviu nada, não sabe de nada. Parece o presidente Lula. Outro diz que ganhamos bolsa, estudamos aqui e partimos para o mercado de trabalho que oferece condições mais vantajosas. Até faz sentido se fizermos uma análise do perfil das chefias: grande parte está na PUC-SP há décadas e sequer concluiu curso de graduação.
Não que isso seja demérito, mas é como o gestor afirmou: os que estudam, se profissionalizam, capacitam-se, não tem chance de progressão na carreira e acabam procurando condição melhor lá fora. Os acomodados ficam por aqui – não se exige nada deles mesmo, então para que habilitar-se? Eu, que completei 14 anos de PUC-SP optei por trajetória diferente: fiz graduação, me tornei advogada, fiz mestrado e agora estou na etapa final do doutorado. Aliás, poderia já defender minha tese este ano e solicitei antecipação em 14 dias e tive meu pedido indeferido. A maioria pede antecipação por seis meses e consegue; pedem prorrogação de prazo por seis meses e também conseguem.
Eu peço antecipação de 14 dias e não consigo. Coisas de PUC-SP. Então vejam bem, sou advogada, mestre, ‘quase’ doutora e professora universitária (tudo isso fora da PUC-SP, é claro). Aqui sou apenas Analista Acadêmica (?) há mais de 10 anos. Alguma perspectiva na carreira? Nenhuma. Perdi a conta dos inúmeros cursos, treinamentos e capacitações dos quais participei. A Universidade investiu muito em mim e até acredito que tenho algum potencial – só não posso exercê-lo, pois não me dão oportunidade para isso. Mas, o que faz uma Analista Acadêmica, afinal?

Demorei muito para descobrir as limitações dessa função, pois sempre fui muito propositiva, cheia de ideias, sugestões, planos. Sempre estive envolvida nas questões da Universidade: grupos de trabalho, projetos, conselhos, comissões etc. Mas agora, finalmente, descobri o que é uma Analista: chego, bato cartão de ponto, ligo o computador e espero que alguém me peça algo. Se pedem, faço. Se não pedem, não faço. Simples assim. Ser propositiva, cheia de ideias, projetos, sugestões, ações? Não mais. Para que? Para quem?
Recentemente me ligaram do RH perguntando se gostaria de participar de processo seletivo para a Assessoria Jurídica. Indaguei: há perspectiva de aumento salarial? Não. E de progressão na carreira? Não. Agradeci e declinei. Mudar para um setor periculoso e ficar estagnada na carreira só para ser chamada de ‘doutora’? Não, muito obrigada. Quem sabe se eu fosse mais vaidosa…
Melhor ser Analista e guardar meu potencial para as atividades que exerço lá fora. Afinal, não é para isso que a Universidade investe na gente? Mas não sejamos injustos não é mesmo?! Alguns setores puderam fazer os reenquadramentos e até promoções. Não para todos os funcionários lotados no setor, apenas para alguns. Qual foi o critério? Não tenho a menor ideia, mas acredito que seja algo como aquele ditado que diz “para os amigos tudo, para os inimigos a Lei”.
O processo da Consulteg, por exemplo, jaz há quase dois anos em alguma mesa. Claro que envidamos todos os esforços possíveis para regularizar a situação funcional do setor. As promessas foram inúmeras, mas nenhuma ação concreta: nosso pedido ‘descansa em paz’ em alguma gaveta. Enfim, talvez seja menos dolorido buscar lá fora o que aqui nos é constantemente negado: reconhecimento, respeito, condições mais vantajosas. Ou completar 50 anos de casa para ser recompensada com o 14º salário!
O PODER
O poder pode ser uma coisa perigosa nas mãos dos despreparados: torna-os arrogantes. Mas o poder é efêmero, passageiro. Troca de mãos com muita rapidez: vejam que já se vai metade do mandato do atual reitor, lá se vai o mandato do presidente Lula, da ex-ministra Dilma. A vida é assim: um dia estamos do lado de cá da mesa; no outro dia, podemos estar do outro lado. Ou não. Também podemos buscar coisa melhor lá fora.
Deixo como reflexão, alguns trechos de Margarida Barreto 1 :
Citando Spinoza: ..toda e qualquer situação, ou condição, que restringe e sufoca o ser, limitando (su)a capacidade de criar, de ser livre, refletir e agir, afeta o ser humano como um todo, sendo necessário mobilizar intensamente o desejo ou o apetite para afastar o que o faz padecer (fl. 70).
As relações que se constituem na negação do outro e se sustentam no autoritarismo e na intolerância, em desconfiança e medo, não podem ser geradoras de alegria e respeito mútuo, mas de infelicidade e doenças, de submissão e passividade, enfim, de impotência para refletir, criar e agir. (fl. 168)
De alguma forma, todos adoecem e enlouquecem nesse ambiente perverso e degradado (fl. 198).
Não ser reconhecido e respeitado torna-se devastador, na medida em que fere a dignidade e a identidade individual. Nas relações autoritárias, que submetem e inferiorizam, exigem e não reconhecem o outro como legítimo outro na convivência, a saúde é abalada, a doença se precipita, se adianta, se acentua e se instala. Manifestam-se distúrbios e danos psíquicos variados, que podem alterar as condutas e modificar a perso-nalidade.(fls. 91/192)
(1) Violência, Saúde e Trabalho (uma jornada de humilhações). São Paulo: EDUC, 2003.

Andrea Melo é Analista Acadêmica na Consultec

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